Black Tuesday: a tua designação para os dias em que acordas às seis da manhã. Oh, the irony!
Maelbeek e Schuman. Passas por lá todos os dias. Passaste por lá hoje, uns dez minutos antes. Se te tivesses atrasado dez minutos, podias ter sido tu. "E se tivesse sido ele?" pensei toda a manhã, em loop, uma e outra vez.
Porque sou uma exagerada, chorei ao ver as notícias, ao ouvir os nomes das estações afectadas pelas explosões, chorei de preocupação e de saudades apesar de te saber seguro. Há bombas, guerras e pessoas a morrer todos os dias, no mundo inteiro. Desgraça após desgraça, há tantas que passam despercebidas e não são noticiadas; quando o são, é fogo-fátuo. Falando com honestidade, parece que a distância é tão psicológica quanto geográfica. Mas quando mexem com os nossos, tocam-nos na pele.
Afastei-me das notícias que nada acrescentam nem sossegam. Num dos vídeos do aeroporto, ouve-se um bebé chorar. É tudo tão podre, tão mau. Imaginei-me no lugar daquelas pessoas cheias de medo ou das suas famílias. Desliguei a televisão. É egoísta, mas já sabia o que mais queria: tu estavas bem. Tu estás bem.
Saí de casa, fui apanhar ar. Quando o sol se pôs, criaram-se aquelas mágicas linhas de luz. Silver linings. Parei, fotografei, deixei-me estar a contemplar, a absorver e observar. Um cliché gigantesco, tudo isto, mas deixa-me cá estar.
E se tivesses sido tu? Não foste tu. Alívio, felicidade, qual epifania. Coração um pouco mais leve. Podias ter sido tu, mas não foste.
Podes não ficar para sempre, mas ao menos ficas para jantar.



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