24/02/16

[Bruxelas] Grand Place



Em cada regresso a casa, a mala fica por desfazer durante uns dias. Deixo-me ficar na ilusão de que ainda estou lá, de que ainda sou outra pessoa. Quando finalmente me resigno e a roupa volta ao seu lugar, restam-me as fotografias e o que escrevo, se tiver tempo. Para escrever, preciso de parar. Fotografar é instantâneo. Invariavelmente, trago para casa mais fotografias do que palavras rabiscadas. 



Trago também detalhes intangíveis que se acumulam em mim: são os pormenores que não encontro nos guias turísticos que levo na mochila, mas que me atraem o olhar; são as histórias que tenho para contar e os momentos bons na sua singularidade. Mas são também as conversas que tenho comigo e nas quais me vou revelando a mim própria. Quando viajo, ando muito a pé. Se estiver sozinha, vagueio durante horas, durante quilómetros, sem me cansar. É neste passo sem um objectivo fixo que me vou desvelando e à cidade. O meu passo fica mais leve, mais ritmado e mais decidido, acompanhado pelo clac clac dos meus sapatos. Às vezes dou por mim a sorrir sem razão aparente. A minha mente vagueia, parando ocasionalmente em coisas mundanas: "Almoço agora ou mais tarde? O que me apetece almoçar? Apanho o metro aqui?". Decisões simples e sem consequência.



Gosto de regressar pela segunda, terceira, quarta vez a um destino que já conheça. Fico sempre sem resposta à pergunta "Achas que 3 dias chegam para ver Florença?". Mudem as variáveis, repitam a pergunta e continuo sem saber o que responder. A pressa não é boa companheira de viagem. Gosto de poder explorar sem uma lista mental a riscar. Em Bruxelas, a Grand Place faz parte dos must see e dei por mim a voltar lá cada vez que regressei à cidade. Não sei bem precisar o que me atrai: é bastante turística, cheia de gente a tirar selfies, não tem bancos onde possamos parar e descansar. Na primeira vez que lá fui, estava um dia nublado e frio. Não a adorei. Mas desde então, já a visitei também em dias de sol, de manhã, ao fim do dia ou à noite. Já a vi preparada para o Natal e para o pior dos casos possíveis: quase vazia, povoada apenas por militares com armas do tamanho da minha perna.



Victor Hugo viveu algures nesta praça. Marx também e a casa onde viveu acolhe hoje um dos restaurantes mais caros da cidade. Ah, the irony! Não sei dizer porque é que me encontro sempre aqui. Mas se estou por perto, os meus pés trazem-me à praça, é quase inconsciente. E volto a fotografá-la, porque o dia é outro e a luz, diferente. Há outros edifícios bastante imponentes na praça e talvez mais importantes que estes prédios que me atraem o olhar. A elegância e austeridade da combinação de cinzento e dourado, a arquitectura na vertical, o topo trabalhado de cada edifício e as janelas de guilhotina. Tal como os holandeses, os belgas vivem de janelas abertas. A luz é pouca, há que beber cada raio. Eu, bisbilhoteira me confesso, espreito para as casas que estão ao alcance do meu olhar. (Mas só um bocadinho.)


Gosto das ruas com montras cheias de chocolate que me conduzem à praça, do aroma a crepes ou waffles e de não saber o que vou encontrar quando lá chego. Da última vez, os edifícios estavam sob uma luz vermelha e um Mickey Mouse em tamanho real distribuía abraços. (Gostaria de vos mostrar como é bonita à noite, iluminada, mas sem luz natural, a minha máquina fotográfica tem a mesma resolução que uma calculadora.)


Foi assim que mais gostei de a ver: com uma grande árvore de Natal que à noite se iluminava, um presépio, muitos pinheiros, as montras das chocolateries decoradas para a época festiva e muita gente sem medo de passear, apesar dos acontecimentos em Paris um mês antes e o consequente lockdown em Bruxelas uma semana depois. Espero lá regressar e concretizar o plano meio tonto de provar uma grande variedade de chocolates de todas as marcas. Até lá, fico-me por estas fotografias.