À mesa, embrenhadas num cozido à portuguesa, as senhoras recordaram as suas infâncias sem electricidade, mas cheias de luz. Eu, menina da cidade e da geração Z, absorvo sofregamente estas estórias de tempos antigos.
Em pequena, a Dona Conceição, amiga da minha irmã, vivia num monte do Alentejo com os pais e as duas irmãs; ela é a do meio. Sem luz eléctrica, a mãe usava ainda um ferro em brasas para engomar e aqueciam-se ao redor da lareira desprotegida, uma tragédia à espera de acontecer. Não havia papel higiénico. A mãe trabalhava nos campos e quando sentia o leite molhar-lhe a roupa, voltava para casa apressada para alimentar a bebé. Ocasionalmente, o pai era o enfermeiro da vila, por força das circunstâncias, não tanto por formação: o médico havia-o ensinado a dar as injecções de que a mulher precisava diariamente. Quando se viaja montado num burro, quem pode ir ao médico da cidade todos os dias? Quem cuida das crianças? Quem trabalha os campos?
Décadas mais tarde, a minha mãe, ia para o Alentejo passar as férias grandes com a família materna: o monte não tinha ainda luz eléctrica, mas o leite era fresco, das vacas ordenhadas nesse mesmo dia. Com as natas do leite, a minha tia-avó fazia manteiga que barrava nas torradas fininhas de pão alentejano que a Mariazinha lanchava. Os colchões eram de lã e todas as manhãs, a Mariazinha acordava num buraco com a forma do seu corpo e tinha de bater o colchão, endireitando-o. Passeava no monte com o primo que também é seu padrinho e montava a cavalo.
A minha infância foi tão diferente e a dos meus filhos, que nos meus sonhos já têm nome, ainda mais será. Eles não terão de andar de burro, mas não posso garantir que saberão ir ao encontro daqueles que os amam e que deles precisem. Provavelmente, terão smartphones, mas saberão comunicar o que é importante? Terão acesso a todo um mundo novo de informação, mas isso não os fará mais inteligentes. Estarão sempre contactáveis, mas estarão abertos à comunicação? Nunca terão de estar sozinhos, mas saberão estar sozinhos e encontrar-se no meio do ruído, da multidão? Saberão contemplar-se, o mundo, o outro?
O meu pai escreve no computador apenas com um dedo e demora alguns segundos a encontrar a letra que lhe convém, mas sabe escolher o tomate mais maduro e qual o melhor momento de cada fruto, cada legume. Sabe o que está na época e o que não está. Também o meu pai tinha um burrinho e nesses tempos, toda a fruta era biológica. A sua infância não foi fácil e vejo-o quando descasca uma maçã, paciente e lentamente, com a língua de fora: a casca é fininha como uma folha. O desperdício das cascas grossas que levam para o lixo um terço do fruto é para ele uma afronta. Por respeito e carinho, também eu levo o meu tempo a descascar uma maçã.
Também sei que não posso romantizar estes tempos. Havia guerra, havia mais tempo envolvido em cada tarefa simples e morria muita gente por falta de saneamento e cuidados básicos. O trabalho podia ser brutal e as distâncias eram mais longas. Aproveito as comodidades que a tecnologia nos tem trazido (prostro-me aos pés de quem quer que tenha inventado os óculos graduados e os pensos higiénicos), também gosto de andar de comboio ou carro e o skype ajuda a atenuar as saudades daquele que eu quero sempre junto de mim. Mas uma parte de mim quer uma casinha de madeira confortável rodeada de árvores de fruto. Quero que os meus filhos comam terra e que saibam folhear um livro antes de saberem o que é um iPad. Quero que eles saibam de onde vem a fruta, de onde vimos e o que é a família. Quero que eles corram e que só cheguem a casa quando a roupa estiver suja, muito suja. Quero que eles tenham um cão.
Não quero viver excluída do mundo, isso não está no meu carácter, mas quero saber quais os frutos de cada estação e a estação de cada fruto. E não quero saber isso através do google.