Há 22 anos (no dia 1), o Sol estava em Peixes, a Lua em Balança e foi nessas circunstâncias talvez irrelevantes que nasci. Hoje, comemorámos feliz e tranquilamente. Almocei com a Mãe, saímos para passear e aproveitar o sol que decidiu aparecer em todo o seu esplendor, o que é invulgar no início de Março, acreditem. O céu pintou-se da cor mais bonita e andei de máquina na mão a captar esta luz imensa. É um exercício engraçado este de andar a turistar na nossa própria cidade: reparamos em pormenores que nos passam despercebidos na pressa do dia-a-dia.
Lanchámos juntas, porque comemorações sem comida é coisa que não ocorre na nossa família; não há quaisquer registos fotográficos de ordem culinária porque o meu nosso apetite voraz não se compadece com isso. Recebi um livro, namorámos outros na livraria e ainda comprei uma das revistas que gosto - a Estante.
Na aula, uma colega minha levou um bolo de cenoura com cobertura de chocolate que ela mesma fez e ainda estava quentinho. Imaginem a cena: o professor a falar tranquilamente acerca da utilidade da escrita e entra a minha colega, passados vinte minutos do início da aula, com uma boleira na mão! Obrigada pela surpresa, querida Camila.
Entalei um dedo e o eléctrico em que passeava chocou contra um carro. Males menores - excepto para o condutor do carro. Em compensação, o resto do dia foi excelente e encontrei o meu chocolate preferido em promoção, pelo que trouxe dois. (Um já não existe...) Foi também um dia cheio de telefonemas das pessoas de sempre e palavras carinhosas de tanta gente. Sinto-me grata.
Para os 22, só quero confiança. Em mim, nisto de escrevinhar devaneios e nesta coisa estranha de ser adulta que me assenta mal, como uma camisola apertada. Dizia no outro dia a um amigo que achava que ao crescer era suposto ganhar algumas certezas. "Eu tinha a ideia que ia saber melhor o que penso, aquilo em que acredito, mas em vez disso, fui perdendo certezas... Sei lá se sou de esquerda ou de direita, se concordo com isto ou aquilo..." Ele, pouco mais velho que eu, riu-se e garantiu-me "Isso só piora." Que tranquilizante.
Ao primeiro olhar, isto de ser adulto é entrar nesse mar bravio e inclemente que é o mundo, sabendo que apenas nos podemos valer dos nossos membros para nos manter à tona. É deixar a areia, terra firme, olhar de frente para a rebentação e ir.
Sem pressões. Há tempo. Afinal, são apenas 22 e leva uma vida a tornarmo-nos a pessoa que queremos ser. Em jeito de comemoração, vou seguir as sábias indicações do poeta: come chocolates, pequena, come chocolates.




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