A semana passada foi marcada por "finalmentes": fui finalmente conhecer a Fundação José Saramago e inscrevi-me finalmente na biblioteca. Para compensar a atitude tardia, inscrevi-me não apenas numa, mas em duas! A saber, a sala de leitura do CCB (ainda uma mini-biblioteca) e a biblioteca de Belém (pertencente à rede de bibliotecas municipais de Lisboa).
Quando era miúda, trazia para casa alguns livros da biblioteca da escola: muitos da Alice Vieira e um ou outro da Sophia, de quem já tinha alguns oferecidos pela minha mãe, quadrados e de lombada muito estreita, da editora Figueirinhas. Gostava desses em particular porque as ilustrações das capas não eram muito literais nem muito infantis; evocavam o título através das cores utilizadas, eram simples e algo misteriosas ao meu olhar infantil.
À parte desses e dos livros que ia buscar à biblioteca da faculdade para propósitos académicos, não era leitora de bibliotecas. Gostava de ter os meus próprios livros, dispô-los nas prateleiras inventando novas ordens e critérios e evitando a possibilidade aterrorizante de perder, estragar ou molhar um livro da biblioteca. Atribuo tal medo à bibliotecária da escola, uma figura vermelha e inchada de olhos azuis muito sérios, que soltava uns grunhidos incompreensíveis em holandês que me deixavam confusa e petrificada. Mas ao medo de bibliotecárias autoritárias sobrepuseram-se o imperativo de poupar dinheiro e a tentativa de não ocupar mais espaço nas prateleiras cá de casa, sob o risco de me afogar em papel.
A linda biblioteca de Belém não tem qualquer figura assustadora: o senhor que me atendeu era muitíssimo prestável e apesar da fila com três ou quatro pessoas, ainda me explicou como podia estender o prazo dos empréstimos através da internet. E entregou-me o cartão com um "Aqui está o cartão da Catarina." Gosto de gente que nos trata pelo nome.
A biblioteca é cheia de luz, espaço, com algumas mesas, cadeirões e chão de traves de madeira envernizadas. Não tenho fotografias bonitas para vos mostrar, porque fiquei completamente vidrada nos livros. Oh, os livros! Quantas possibilidades! Quantas perspectivas! Quantos títulos e histórias à minha espera! É como entrar numa livraria, mas a sensação é multiplicada porque só preciso do meu inconspícuo cartãozinho para ler qualquer um deles. (Talvez seja demasiado entusiasmo a propósito de uma coisa tão banal, mas eu sou uma moça de prazeres simples.)
Muitos romances à escolha, alguns livros de filosofia (numa amálgama esquisita com livros de psicologia e auto-ajuda ainda mais desconcertante que a habitual vizinhança de prateleiras) e uma sala dedicada a livros sobre mulheres ou escritos por mulheres, ainda não averiguei com atenção. Foi nesta sala que encontrei a biografia romanceada da Frida Kahlo que ando a ler apaixonadamente. Trouxe também The Secret History da Donna Tartt.
Imagino que quando chegar a fase de pânico que sucede à procrastinação de todo um semestre, vou acampar nas bonitas e sossegadas salas da biblioteca de Belém.
“I have always imagined that Paradise will be a kind of library.” Jorge Luis Borges


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