Fear not, my friends! Segundo esta notícia, a Barbearia Campos não vai tornar-se num McDonalds: esteve temporariamente fechada para obras de remodelação. Era ali que o Nandinho ia embelezar-se para a sua Ofélia e que o Eça ia arranjar o bigode farfalhudo. O nosso PR vai poder continuar a ir lá cortar os três cabelinhos que tem no alto da cabeça.
No entanto, vai mesmo abrir um McDonalds ali ao lado, o terceiro na Baixa. Se forem espertos, abrem de madrugada para alimentar as almas esfomeadas vindas a cambalear do Bairro Alto. Já a Nunes Corrêa, loja de roupa que tinha a sua morada na Rua Augusta desde 1919, fechou e no seu lugar vai abrir uma Kiko. É triste e descaracteriza a cidade, mas calculo que continuem a abrir lojas deste género porque há procura, não?
Qualquer compra é uma opção tão económica quanto social. Nem vou entrar pelas marcas que testam em animais ou lucram à conta do trabalho de crianças asiáticas; isso é tão mais complexo. Estou a pensar a uma escala local: mercearias, livrarias, retrosarias, oficinas, cafés, sapatarias e lojas que tais que são realmente vintage, retro, sem qualquer hipótese de competir com os preços das grandes cadeias, mas que têm charme e autenticidade. Atenção que esta última pode aparecer-vos sob a forma de um senhor de palito nos dentes, cabelo seboso, pouco dado ao politicamente correcto e que vê a bola enquanto vos serve uma bica, a 1854236ª da sua vida. Mas faz parte. Se queremos preservar estas pérolas de outros tempos é preciso mais do que petições e indignação perante as notícias do seu encerramento: é preciso frequentar estes espaços e escolher comprar neles.
"Mas é mais caro." Sim. Muitas vezes também não podemos evitar comprar nas grandes cadeias, apesar de termos consciência do que está por trás daquela camisola tão barata. Em certos casos a diferença não é assim tão grande. Mas é triste passear pela Baixa e ver uma imitação mal amanhada de uma qualquer capital europeia.
"Mas não depende só de nós; há políticas autárquicas, ganância capitalista, blá blá blá." Tudo verdade, mas podemos ajudar. Podemos escolher as azeitonas da esquina porque o merceeiro as tempera como gostamos. Podemos comprar novelos e agulhas na retrosaria antiga e a senhora que nos atende saberá sugerir o melhor tipo de lã para a manta que queremos tricotar. Podemos comprar um romance numa livraria independente: não teremos talvez os mesmos descontos que nas grandes cadeias livreiras, mas a nossa compra fará diferença para aquele negócio.
Não sou fundamentalista nem queria viver nos anos 50 (bem, pensando melhor, queria sim): eu também gosto muito da Zara e do cappuccino do Starbucks. Guilty! Mas é uma pena perderem-se certos hábitos, conhecimentos e histórias. Mudar o mundo é coisa complicada, mas podemos cuidar da nossa horta, não é?

2 comentários:
Podemos e Devemos !
Então quando a barbearia voltar a abrir, levo-te lá para cortares o cabelo! ;)
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