26/04/16

Caffé sospeso


Vivi quase um ano em Itália e rapidamente me juntei com passo alegre e um sorriso ao cortejo daqueles que adoram este país também à beira mar plantado: a comida tão simples e aromática, a língua cantada e envolvente, a arquitectura generosa, a arte presente em cada recanto e os italianos. Oh, aquela gente calorosa e simpática...

Para os italianos do Sul, o dolce fare niente é modo de vida e sobrepõe-se à burocracia (tratar de algo prático é um exercício de paciência, controlo de respiração e desapego), o bom vinho, o gelato e a pizza servem de anti-depressivo e a fala tem de ser tão rápida e furiosa quanto a condução. Poucos falam qualquer língua para além do italiano, mas quando encontramos alguém que saiba alguma coisa de espanhol ou inglês, faz questão de nos mostrar o que sabe. Quando se deparam com um estrangeiro, procuram pontos de contacto entre a sua cultura e a da pessoa que têm diante de si, querem ajudá-la, acolhê-la e rapidamente somos parte da famiglia. São espontâneos e barulhentos, sabem levar a vida cantando e rindo - comendo e bebendo, acrescento - e são generosos.

Pela Campania (região onde vivi e que inclui Nápoles) ainda se vai encontrando esta antiga tradição do caffé sospeso. Num quadro de ardósia assinalam-se o número de cafés pagos e propositadamente não consumidos: uma pessoa que precise pode usufruir de um café já pago e actualiza-se o quadro. É bonito e é também um gesto de confiança: não sabemos se a pessoa que vai usufruir do café que lhe oferecemos tem realmente dificuldade em pagá-lo, mas há que acreditar numa certa ordem oculta das coisas. Oferecemos ajuda sem saber a quem. Não temos outra solução senão confiar que chegará ao sítio certo.

Ontem entrei no Legendary Café, em Sintra, e dei de caras com um quadro de ardósia bem mais composto: para além de 11 cafés, encontrei 9 sopas, 4 salgados e 1 prato do dia. Ainda há quem queira fazer bem ao próximo, mesmo que este lhe seja desconhecido. E assim saí de lá mais feliz.

(Obviamente, ninguém me pediu publicidade, mas acho que vale a pena partilhar estes gestos.)

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