14/04/16

Letreiros de uma Lisboa antiga


É sempre à Baixa que volto.
Começo no Chiado, percorro a Rua Garrett e a do Carmo, de vez em quando o Rossio e quase sempre o Terreiro do Paço. Na minha geografia mental, a Baixa vai do Rossio à estátua de D. José I, do Camões à Rua da Madalena.



Enquanto me perco no tempo, a máquina fotográfica acompanha-me para captar os detalhes que me aparecem no caminho e que havia negligenciado. Mas há lugares que procuro sempre: o Arco da Rua Augusta ou o topo da Igreja da Encarnação são alvos preferenciais. A luz é outra assim como a cor do céu ou a minha (dis)posição.


De máquina na mão, detecto pormenores cuja repetição vou procurando sem qualquer propósito explícito senão o jogo e a organização. Os sintomas arquitectónicos da globalização levam-me a procurar os resquícios abandonados de outros tempos: tenho medo que desapareçam. Ingenuamente, colecciono-os em fotografias.


Algumas destas pérolas que por aí se encontram servem ainda o seu propósito original, como a Ginjinha, a minúscula Luvaria Ulisses ou a Chapelaria Azevedo. Outros letreiros servem apenas para nos deixar curiosos: Au Bonheur des Dames, com nome de romance, era uma perfumaria no início do século XX. Hoje é a Nespresso.


Talvez seja influência do estilo fotográfico d'O Primo Basílio que trago na mala para continuar num qualquer bem-vindo compasso de espera. Enquanto leio, reconheço as ruas e os largos; enquanto passeio e reparo nestes pormenores antigos, imagino as personagens do Eça a viver por aqui, a conversar, a ver e ser vistas. 



Apesar da minha preferência por estas coisas detalhadas e antigas que nos transportam para outro tempo, para histórias de gente imaginada, eu gosto desta cidade. Gosto da sua vida, das ruas e recantos por explorar, das pessoas de cá e dos turistas que a descobrem e se encantam com a nossa simpatia, com a nossa comida, com a nossa luz.
Quem não se encantaria?

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