16/04/16

Sally Nixon (e o direito à normalidade)

Aviso: neste texto detectam-se elevados níveis de sarcasmo e um potencial vírus ainda por identificar. Pensa-se que será feminismo de tipo fraquinho.

Estou permanentemente rodeada de conselhos que não pedi e nos quais não me revejo.
"Que roupas favorecem o teu tipo de corpo?"
"Qual é o undertone da tua pele e como identificá-lo?"
"Como atingir o peso ideal em 10 dias e mantê-lo!"
And so on. O que é dirigido ao público feminino centra-se em roupa, dietas, vicissitudes da maternidade, entrevistas a mulheres famosas e conselhos sexuais ou sobre a fórmula infalível para conquistar aquela criatura endeusada que nada tem de homem real, sem qualquer consideração pelas nossas outras facetas.
É-nos imposta a perfeição: temos de andar sempre depiladas e impecavelmente vestidas, temos de ter juízo porque "uma senhora não se comporta assim!" e para alguns, somos seres angelicais que não arrotam e nunca disseram palavrões.
(Eu sei que não apenas às mulheres são impostos estereótipos, mas como mulher são os que nos impõem que conheço melhor.)


Arrumam-nos em ignorantes gavetinhas: a intelectual, a giraça, a bitch, a que vai com todos, a mãezinha. Beleza ou inteligência, preocupação com o corpo ou com o espírito: coisas vistas como opostas e aparentemente incompatíveis na mesma criatura. Se não temos uma nem outra, somos umas coitadas. Ser mãe ou ter uma carreira de sucesso: se escolhermos não seguir uma destas opções, a outra é obrigatória porque só assim a renúncia à primeira hipótese é justificável.

Com isto convivemos 364 dias do ano. A excepção está guardada para o famoso 8 de Março, dia da Mulher. Ah que poder libertador! Que mudança abismal! De seres angelicais passamos a seres omnipotentes: nesse dia, as mulheres são seres sensíveis, de uma força sobre-humana, são os pilares da sociedade. Somos excepcionais. Somos até inteligentes.


8 de Março parece ser o único dia em celebramos debilmente os feitos das mulheres em qualquer área: pelo facebook, ficamos a saber que há cientistas para além da Marie Curie e que há mais pintoras que a Frida Kahlo. Mas a igualdade não se pode resumir às efemérides: o mérito destas mulheres têm de ser (re)conhecido, tem de ser parte da História e os seus nomes devem figurar nos livros escolares, nos museus, na televisão, na nossa cultura geral.

E aqui me divido: enquanto acho bem que o dia da Mulher sirva pelo menos para isto, a mensagem subjacente causa-me urticária. É como se anunciássemos "See? Olhem só como somos inteligentes, olhem só como valeu a pena lutar pelos nossos direitos fundamentais, pelo básico do básico!"
Vão desculpar-me, mas eu não preciso de inventar a cura para o cancro ou ganhar um Nobel para justificar o direito à educação.


Encontrei um artigo com estas ilustrações de Sally Nixon que celebram a normalidade, habitualmente tão subvalorizada, mas bem real. A maioria das mulheres (e dos homens) que conheço é assim: normalmente extraordinária, extraordinariamente normal. A maioria das pessoas que conheço não se encaixa em gavetas, mas já se sabe que nos estereótipos não cabem pessoas.

Deixem-me ser normal, seja lá o que isso for. Deixem-me ser simplesmente humana. Sou imperfeita e contraditória, mas perfectível e constantemente à procura de um acordo em mim que nunca será total.
Deixem-me ser normal: eu não tenho de ser extraordinária para justificar qualquer um dos meus direitos.

(Todas as imagens retiradas do site da artista)

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