Mustang: a última raça de cavalos selvagens dos Estados Unidos. Sem dono, vagabundo.
Que não se amestra nem domestica.
"Mustang", de Deniz Gamze Ergüven, conta a história de cinco irmãs turcas que, depois de uma tarde de praia com colegas de escola, levam uma existência enclausurada e cheia de regras impostas pela avó e pelo tio. As saias, os livros de escola, a maquilhagem e os telefones são guardados e as meninas são confinadas à casa e às tarefas domésticas, cujo aperfeiçoamento lhes arranjará um marido. Mais não conto, vejam-no. Vale tanto a pena.
Este filme tocou-me, provocou-me um misto de ternura e revolta. A cumplicidade feminina é potente e não há muitos filmes que a representem sem glamour e com honestidade, espontaneidade e ingenuidade, que abundam na relação entre estas irmãs. Mais do que a situação que o filme pretende trazer à luz ou as questões que habilmente toca, o que ficou comigo foi a relação das cinco irmãs: Lale, Nur, Ece, Selma e Sonay. (Os nomes turcos são tão bonitos.) Gostei da sua espontaneidade, dos planos simples, da normalidade dos seus momentos.
Revoltou-me a situação que o filme ilustra: o poder de decisão cabe aos homens, as raparigas deixam a escola e arranjam-se casamentos forçados, impõe-se às raparigas um comportamento recatado e digno de mulher de família e a virgindade é uma preciosidade a ser vigiada e preservada. As mulheres são reduzidas à beleza física, à sopeirice doméstica, à manutenção da vida.
Eu não vivo num gruta, nada disto me é novo. Mas ao ver uma rapariga que passa a noite de núpcias com a família do noivo à porta, a perguntar se a coisa já se deu e se podem vir verificar os lençóis, pensei "Podia ser eu." Se é egoísta da minha parte ou apenas pragmático, não sei, mas nunca tinha pensado nestes termos. É acidental: nasci em Portugal, mas podia ter nascido na Turquia ou na Arábia Saudita. Podia ser eu, podia ser a amiga que viu o filme comigo. Podíamos ser nós, mas nascemos noutras coordenadas. As nossas oportunidades estão ligadas à terra onde nascemos e crescemos; salvo excepções que ainda nos fazem ter confiança de que os nossos esforços valem alguma coisa, somos pequenas maçãs que não caem muito longe da árvore e por ali se deixam estar. A dignidade não deveria ser garantida ou negada pela geografia ou pelo género com que nascemos.
Ao ver o trailer, fiquei com expectativas altas, e "Mustang" não desiludiu. É bastante claro o que o filme pretende denunciar e assume ainda maior importância perante as notícias que nos chegam da Turquia. Ainda que este tratamento das raparigas deva ser denunciado e alterado, nunca achei que o filme fosse, de alguma forma, militante. É pela história que nos encantamos e é a história que nos leva a sentir algo, a preocuparmo-nos. E se nos preocupamos, a mensagem está passada.
Este filme tocou-me, provocou-me um misto de ternura e revolta. A cumplicidade feminina é potente e não há muitos filmes que a representem sem glamour e com honestidade, espontaneidade e ingenuidade, que abundam na relação entre estas irmãs. Mais do que a situação que o filme pretende trazer à luz ou as questões que habilmente toca, o que ficou comigo foi a relação das cinco irmãs: Lale, Nur, Ece, Selma e Sonay. (Os nomes turcos são tão bonitos.) Gostei da sua espontaneidade, dos planos simples, da normalidade dos seus momentos.
Revoltou-me a situação que o filme ilustra: o poder de decisão cabe aos homens, as raparigas deixam a escola e arranjam-se casamentos forçados, impõe-se às raparigas um comportamento recatado e digno de mulher de família e a virgindade é uma preciosidade a ser vigiada e preservada. As mulheres são reduzidas à beleza física, à sopeirice doméstica, à manutenção da vida.
Eu não vivo num gruta, nada disto me é novo. Mas ao ver uma rapariga que passa a noite de núpcias com a família do noivo à porta, a perguntar se a coisa já se deu e se podem vir verificar os lençóis, pensei "Podia ser eu." Se é egoísta da minha parte ou apenas pragmático, não sei, mas nunca tinha pensado nestes termos. É acidental: nasci em Portugal, mas podia ter nascido na Turquia ou na Arábia Saudita. Podia ser eu, podia ser a amiga que viu o filme comigo. Podíamos ser nós, mas nascemos noutras coordenadas. As nossas oportunidades estão ligadas à terra onde nascemos e crescemos; salvo excepções que ainda nos fazem ter confiança de que os nossos esforços valem alguma coisa, somos pequenas maçãs que não caem muito longe da árvore e por ali se deixam estar. A dignidade não deveria ser garantida ou negada pela geografia ou pelo género com que nascemos.
Ao ver o trailer, fiquei com expectativas altas, e "Mustang" não desiludiu. É bastante claro o que o filme pretende denunciar e assume ainda maior importância perante as notícias que nos chegam da Turquia. Ainda que este tratamento das raparigas deva ser denunciado e alterado, nunca achei que o filme fosse, de alguma forma, militante. É pela história que nos encantamos e é a história que nos leva a sentir algo, a preocuparmo-nos. E se nos preocupamos, a mensagem está passada.

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