"There will be books written about Harry. Every child in the world will know his name."
O entusiasmo. A euforia. A ansiedade de ler tudo e a vontade de querer prolongar cada palavra o máximo de tempo possível. O dilema: "Quero ler o livro até ao fim, mas não quero que acabe." Quando cheguei a casa, admirei cada detalhe e saboreei a sensação de ter o oitavo livro do Harry Potter nas mãos. "Oitavo livro do Harry Potter. Porra." Lembrei-me de tudo. Lembrei-me de ter 7 anos e demorar oito meses a ler os primeiros quatro livros. Lembrei-me de ir ao cinema ver Harry Potter e o Cálice de Fogo, um dia depois de mudar de casa, com a tralha ainda toda encaixotada, porque a minha mãe tem perfeita noção das prioridades, está claro. Lembrei-me de quando fui à procura do 7º livro um mês antes do seu lançamento porque me enganei na data. Lembrei-me de a minha irmã, na noite em que comprei Harry Potter e o Príncipe Misterioso, abrir o livro na última página e ler a última frase. Tivemos de ir para o carro por escadas rolantes diferentes.
Isto é mais do que "gostar do Harry Potter". Aprendi e cresci com os livros, com os filmes, com as personagens e todos os ensinamentos, todos os valores estão entranhados em mim. Na minha cabeça de 8 anos, eu era a Hermione: doida por livros, demasiado respeitadora da autoridade escolar, "an insufferable know-it-all", uma nerd até à medula. Até aos 11 anos, esperei secretamente que a minha carta para Hogwarts chegasse, mas nada. A coruja perdeu-se algures pelo caminho e eu conformei-me a uma vida de muggle.
Foi com a J.K. Rowling que percebi o que era um autor. Até ver o seu nome na capa de Harry Potter e a Pedra Filosofal, não tinha pensado muito no percurso que os livros faziam até chegar à minha mesa de cabeceira. Nunca me tinha ocorrido que havia alguém a idealizar as histórias que eu lia. Quando me apercebi de que aquele nome era o de quem tinha as ideias e escrevia, tudo mudou. Ela mudou a minha infância, marcou uma geração inteira.
Ainda estou em negação. Achei que a história estava completa, que o conflito estava resolvido e que o ciclo estava fechado. Nunca, nunca pensei que fôssemos ter um oitavo livro do Harry Potter. É um crime prolongar uma boa história para lá do seu prazo de validade e estava feliz com os sete livros: todas as questões tinham resposta, todas as personagens me eram credíveis e familiares, tudo estava no seu lugar. Há uns anos, surgiu o Pottermore e pensei "Agora é que não vai haver mesmo um oitavo livro. Se ainda houver alguma curiosidade a satisfazer, é aqui que temos de vir." Wrong!
Quando soube que iria sair o guião da peça Harry Potter and the Cursed Child, não fiquei entusiasmada por aí além. Não costumo ler peças de teatro e como disse antes, o conflito estava resolvido, não sabia se haveria algo mais a dizer. Depois recuperei todas as minhas faculdades mentais e foi assim que dei por mim na Lello, no Porto, inspiração para o escritório do maior feiticeiro de todos os tempos e para a Flourish and Blotts.
Havia gente da minha geração e miúdos mais novos, mascarados e acompanhados pelos pais. Oh humanidade, ainda há esperança! A esses pais, well done! Havia estudantes de Hogwarts de todas as casas (Gryffindor em maioria, claro), Devoradores da Morte (ou Dementors? Não percebi bem...), gente a usar t-shirts tão giras ou fios com o símbolo dos Talismãs da Morte ou com Time-Turners. Como eu queria um Time-Turner, mesmo de pechisbeque...
Sem pressas, fomos para a fila por volta das dez e meia. Imbuída de um raro espírito de união por estar entre potterheads, meti conversa com o grupo atrás de mim e esperámos juntos. Uma orgulhosa Hufflepuff, duas Ravenclaw, um Gryffindor e um Ravenclaw que gostaria de ser Slytherin. À meia noite de 31 de Julho, cantámos os Parabéns à Jo e ao Harry, mas esquecemo-nos do Neville. Até nisso tem azar, o pobre coitado. Eles fizeram o tempo passar a correr e à 1h20m de 31 de Julho, aniversário da J.K. Rowling, do Harry e do Neville, tinha o oitavo livro nas mãos.
Tentei não me apressar a lê-lo. Às tantas, pousei o livro e chorei que nem a Moaning Myrtle. Chorei como quando o Dobby morreu ou quando o Harry pôs a snitch na boca e fala com os espectros das pessoas que mais amava, como quando fui ver o último filme e me apercebi de que a minha infância estava a acabar, para sempre. Não podia ser mais melodramática, mas faz parte da poderosa sensação de ser fã. E foi por isso que fui à Lello: para sentir que não estou sozinha e que há outras pessoas para quem a história importa tanto como para mim.
Outro dilema: como vou introduzir as histórias aos meus filhos? Leio-lhes as histórias ou ofereço-lhes a versão ilustrada, interferindo na sua imaginação e na sua relação com as personagens, tirando-lhes a surpresa? Ou não lhes leio as histórias, mas deixo que vejam os primeiros filmes e confio que tenha feito decentemente o meu trabalho de mãe (leia-se, fazer as pobres crianças gostar de livros desde o berço)? Decisions, decisions...
Não direi nada sobre o livro, não quero fazer spoilers, mas digo que vale muito a pena. E para além dos estúdios e do The Wizarding World of Harry Potter, o parque temático em Orlando, tenho um novo objectivo na vida: ir ver a peça a Londres. Disseram-me que é maravilhosa e que os efeitos são fantásticos. Suspeito que ficará muito tempo em cena, à semelhança de Cats ou The Phantom of the Opera. Até cumprir esse novo sonho, fico-me pelos livros (acho que vou reler os oito, de uma assentada) e pelo filme Fantastic Beasts and Where to Find Them, outro presente para os potterheads ainda este ano! Baseado no mundo que adoramos e no livro com o mesmo nome, vai ter o Eddie Redmayne e a J. K. Rowling vai escrever o guião! Thank Dumbledore!


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