18/11/16

Hygge [ou sobre o recolhimento]


Bem lá no fundo, sou uma nórdica. Gosto da organização, da autonomia que incutem nas crianças, gosto do frio das ruas e do calor das casas, gosto do design simples e sem frufrus, gosto do modo descontraído com que levam a vida e definitivamente, gosto de hygge*.

O que é hygge? É uma palavra dinamarquesa que não tem uma tradução exacta noutras línguas; representa um modo de estar baseado no conforto, no aconchego, no calor humano, na calma e no contentamento. Hygge representa o prazer genuíno pelas coisas quotidianas e simples, um afastamento momentâneo em relação ao bulício do mundo.

Se quisermos ser cínicos, é só um conceito que está na moda, a par do já irritante mindfulness, mas é também apontado como uma das causas da famosa felicidade dinamarquesa. Com todas as falhas a que as generalizações estão sujeitas, os italianos vivem o dolce fare niente, os espanhóis abusam do salero, nós navegamos na saudade e os dinamarqueses gozam o hygge.

Hygge é o conforto de um jantar com gente com quem se tem sintonia, uma toalha bonita, comida simples, nutritiva, deliciosa e conversas durante horas. É também desligar a televisão, acender velas e gozar um bom livro, com um cappuccino e bolachas. Mostrem-me um estilo de vida que se baseie nisto e estou rendida.

Agora que as minhas longas férias acabaram, passo muito tempo em frente ao computador e o meu ritmo é ditado pelo relógio. Mas estou feliz: o ambiente no escritório é muito bom, grande parte do meu trabalho é ler, aprendo muito sobre a indústria à qual quero pertencer e sinto-me motivada pela extensa lista de tarefas. Porém, agora que trabalho, sinto a necessidade de alimentar a Catarina que vive fora do escritório: a que gosta de passear e pisar folhas secas, de ler durante horas, de levar com sol na cara e gozar os fins de tarde na cadeira da sala, com a sua caneca preferida cheia de cappuccino quente. Para me sentir em paz com o mundo, tenho de me afastar dele.

Segundo a sociedade, temos de ser mais produtivos, temos de escalar uma montanha atrás da outra, temos de aproveitar melhor o tempo livre. "Aproveitar melhor o tempo livre", como se o descanso e o recolhimento fossem coisa de desocupados. É-nos exigido contínuo movimento, ainda que estejamos a correr em círculos. Eu prefiro o hygge, obrigada.

Depois de uma semana de trabalho e outras tarefas domésticas mais ou menos chatas, tudo o que me apetece é ter um encontro comigo mesma, conversar com um livro, namorar a minha sala. Hygge é também resistir à tentação de encher todos os momentos livres com um programa ou tarefa (nisto, peco por defeito). Quando me convidarem para qualquer coisa, direi que estou a praticar hygge; é uma maneira bem mais exótica de dizer que me transformei numa velhinha de 80 anos.

* Lê-se hoo-ga.

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