16/03/16

Frida Kahlo, Rauda Jamis


Devoramos as palavras como cerejas numa tarde de Verão. Nesta biografia romanceada, os capítulos pequenos (com apenas meia dúzia de páginas) intercalam acontecimentos narrados na terceira pessoa e tentativas da autora de assumir a voz, os sentimentos, as dores de Frida. Estas últimas acompanharam-na sempre, marcaram-lhe o corpo, a alma e a pintura.

O corpo falhou-lhe sempre, mas também a levou aos pincéis. Foi com os pincéis que se libertou dos coletes que lhe sustentavam a coluna. Com telas e tintas movimentou-se como não lhe permitiam o gesso e o aço.

Uma biografia é, por definição, a narrativa de uma vida. Mas se a personalidade na qual se centra viveu num tempo e espaço que não os do leitor, há que torná-los mais claros. À narrativa que se compõe de momentos singulares é importante acrescentar um contexto nas suas vertentes histórica, literária ou social. É difícil falar de Frida sem lhe acrescentar a vertente política e obviamente, a artística; ao ler a biografia, temos noção do ambiente que se vivia no México revolucionário ou entre os artistas nova-iorquinos dos anos 40. Vemos as cores da casa (não apenas) azul e ouvimos os brincos de Frida chocalhar. Imaginamo-la franzir as suas sobrancelhas em forma de ave e encolhemo-nos perante os relatos de um corpo sujeito a tanta dor.

No entanto, pergunto-me: a partir de que fontes se escrevem os diálogos ou as cenas do quotidiano privado e íntimo? São inventados, baseados em cartas ou em relatos daquele tempo? Supondo que sim, onde se traça o limite entre a narrativa que se cinge aos factos e um exercício de imaginação do que terá acontecido?

"Mas subitamente, ali, sob o espelho opressivo, tornou-se imperiosa a vontade de desenhar. Tinha todo o tempo, já não apenas para traçar os riscos, mas para lhes inculcar um sentido, uma forma, um conteúdo. Compreender alguma coisa deles, concebê-los, forjá-los, torcê-los, desligá-los, tornar a uni-los, enchê-los. À maneira clássica, utilizei um modelo para aprender: eu. Não era fácil, pois por mais que pensemos ser o nosso tema mais evidente, somos também para nós próprios o mais difícil. Julga-se conhecer cada fracção do nosso rosto, cada traço, cada expressão, mas tudo se esboroa sem cessar. Somos nós e outrem."
Rauda Jamis

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