Devoramos as palavras como cerejas numa tarde de Verão. Nesta biografia romanceada, os capítulos pequenos (com apenas meia dúzia de páginas) intercalam acontecimentos narrados na terceira pessoa e tentativas da autora de assumir a voz, os sentimentos, as dores de Frida. Estas últimas acompanharam-na sempre, marcaram-lhe o corpo, a alma e a pintura.
O corpo falhou-lhe sempre, mas também a levou aos pincéis. Foi com os pincéis que se libertou dos coletes que lhe sustentavam a coluna. Com telas e tintas movimentou-se como não lhe permitiam o gesso e o aço.
Uma biografia é, por definição, a narrativa de uma vida. Mas se a personalidade na qual se centra viveu num tempo e espaço que não os do leitor, há que torná-los mais claros. À narrativa que se compõe de momentos singulares é importante acrescentar um contexto nas suas vertentes histórica, literária ou social. É difícil falar de Frida sem lhe acrescentar a vertente política e obviamente, a artística; ao ler a biografia, temos noção do ambiente que se vivia no México revolucionário ou entre os artistas nova-iorquinos dos anos 40. Vemos as cores da casa (não apenas) azul e ouvimos os brincos de Frida chocalhar. Imaginamo-la franzir as suas sobrancelhas em forma de ave e encolhemo-nos perante os relatos de um corpo sujeito a tanta dor.
No entanto, pergunto-me: a partir de que fontes se escrevem os diálogos ou as cenas do quotidiano privado e íntimo? São inventados, baseados em cartas ou em relatos daquele tempo? Supondo que sim, onde se traça o limite entre a narrativa que se cinge aos factos e um exercício de imaginação do que terá acontecido?
"Mas subitamente, ali, sob o espelho opressivo, tornou-se imperiosa a vontade de desenhar. Tinha todo o tempo, já não apenas para traçar os riscos, mas para lhes inculcar um sentido, uma forma, um conteúdo. Compreender alguma coisa deles, concebê-los, forjá-los, torcê-los, desligá-los, tornar a uni-los, enchê-los. À maneira clássica, utilizei um modelo para aprender: eu. Não era fácil, pois por mais que pensemos ser o nosso tema mais evidente, somos também para nós próprios o mais difícil. Julga-se conhecer cada fracção do nosso rosto, cada traço, cada expressão, mas tudo se esboroa sem cessar. Somos nós e outrem."
Rauda Jamis

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