A solução ideal para um problema que nem o chegou a ser é hoje um motivo para estar feliz.
Há um mês e meio que me dedicava à hercúlea tarefa de arranjar um estágio não remunerado na área editorial, necessário para terminar o meu mestrado e o motivo pelo qual me inscrevi no mesmo. Fiz o meu currículo como deve ser, algo que se destacasse visualmente, já que não me poderia fiar na minha experiência profissional, até agora nula. Fiz 16 cartas de motivação diferentes, dirigidas a cada editora, que juntei ao currículo. Tive duas singelas respostas: uma negativa e uma positiva. Ligaram-me na quarta-feira e na sexta lá fui eu para a minha primeira entrevista.
Para além de ser a minha única opção neste momento, era também um lugar que estava no topo das minhas preferências. Que sorte! A entrevista correu bem, achei eu: à medida que me apresentavam o projecto, as minhas ideias voavam cada vez mais alto e só conseguia pensar: "Quero tanto estagiar aqui! Quero tanto estagiar aqui!". Estou ansiosa por começar a trabalhar, aprender mais e testar-me, saber com o que consigo lidar, descobrir o que sei fazer melhor e o que tenho de melhorar: esta oportunidade parecia-me ideal para tudo isto. Saí da entrevista serena e entusiasmada, mas sem uma resposta conclusiva e confrontada com o meu paupérrimo conhecimento dos autores portugueses contemporâneos, crucial para este estágio. Fui a correr à biblioteca mais próxima e trouxe para casa cinco livros que se incluíam nessa categoria.
O entusiasmo era tanto que partilhei com três colegas e amigos a oportunidade e encorajei-os a enviar os seus currículos. Não foi excesso de confiança, foi pura e irreflectida ingenuidade. Quando um dos meus colegas me disse que tinha conseguido uma entrevista, fiquei contente por ele e partilhei com o meu moço. Resposta: "Às vezes, és tão ingénua." Verdade, sou mesmo. Ingénua por escolha própria, como uma amiga me disse há algum tempo: "Tu conheces o bom e o mau, mas preferes acreditar no bom." Pessimista quanto ao geral, optimista quanto ao particular. Totalmente desconfiada das massas e com uma tendência um tanto ou quanto cega para confiar nos indivíduos. Não creio em qualquer poder superior que não se deixa conhecer, mas acho que se dançarmos alegremente com as circunstâncias que nos são dadas, as coisas se vão resolvendo.
Drama, tragédia, horror. Ansiedade, angústia. Pensava na estupidez que seria perder esta oportunidade porque fui demasiado boazinha em vez de ser competitiva; ser competitiva é coisa que não me assiste muito. Poderia ter assegurado o meu lugar e só depois dizer-lhes qualquer coisa, mas não, decidi jogar duas pessoas perfeitamente capazes nas mãos dos entrevistadores só para lhes dar mais escolha. "És tão miudinha, filha", pensei. Em resultado desta tão boa e desinteressada acção, sofri até hoje naquela neura que só os ansiosos conhecem.
Depois de saber que uma das minhas colegas tinha ficado, fiquei desanimada e a achar que se calhar já não iria ficar; não teriam espaço para mais uma estagiária. Ou teriam? Têm. Estava no duche quando o telemóvel tocou para me dizerem que tinha sido aceite. Encharcada, desatei a correr para atender. Acho que nem pus gel de banho. Two down, one to go.. Ligou-me o meu amigo, apreensivo ao dizer-me que tinha sido aceite e suspirou genuinamente de alívio quando soube que nós também.
Resumindo: candidatámo-nos três pessoas e ficámos os três, cada um preocupado consigo e com os outros. No final de Outubro, lá nos vamos encontrar todos os dias, living the dream. Para além de confiar no mundo, posso continuar a ser uma boazinha naba. Cada um é como cada qual, ou na minha versão preferida, cada loco con su tema.
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