23/08/16

[Faro] Trip down memory lane

Finalmente saciei a minha sede pelo Sul: laranjas à venda na beira da estrada, o cheiro das figueiras, ver ninhos de cegonhas, mergulhar naquele mar quente, bolas de berlim na praia, passar pelas pequenas vilas vazias, tão distantes da loucura de Agosto.



Os dias eram de um estupor aparvalhado graças ao calor desdignificante: não conseguia articular nenhum pensamento coerente e muito menos escrever. Tirei estas fotos ao final da tarde (a única hora possível) num passeio pela zona antiga de Faro.

Depois de um fim de semana no Norte, é engraçado ir detectando as diferenças na arquitectura das duas regiões: pelo Sul, vêem-se menos azulejos e mais casas caiadas, a pedra em volta das janelas é mais clara, há chaminés brancas e frisos pintados na frente superior das casas.




Ao longo deste passeio, de máquina fotográfica na mão, dois senhores locais meteram conversa comigo em inglês. "Ah, achava que era gringa!", disse-me um deles. Já não me lembrava de como era, mas durante os quatro anos em que vivi no Algarve, foi uma confusão recorrente. Ter cabelo claro, pele branca e olhos azuis dá nisto. E tal como aconteceu quando era miúda, apanhei o sotaque num instante.



Enquanto passeamos, a minha mãe vai-me apontando os lugares que constroem as suas memórias: o hospital onde nasceu 9 anos depois do irmão, no mesmo quarto e com a mesma parteira, as casas onde viveu, onde viveram estes tios ou aquela amiga, a casa onde frequentou a escola primária, a praceta onde brincava com os vizinhos, a praia onde ia com os amigos e as ruas por onde passeavam. Gosto desta cidade, influenciada por uma colecção de memórias que não é minha.

As minhas memórias dos Verões algarvios incluem obviamente aquelas praias maravilhosas, as melhores do mundo. Não me falem do iodo das praias do Norte ou da Ericeira, por favor, eu farei ouvidos moucos. Para os mergulhos intermináveis e horas a nadar, as nortadas não me dão jeito nenhum. Eu só quero exactamente o que tive este Verão: mar quente que não puxa muito, com algumas ondas baixas. Não há palavras para isto. Foram três dias de praia que valeram por muitos. Nadei e rodopiei com um sorriso nos lábios.



O tempo abranda. Chegamos rapidamente ao nosso destino, sem filas nem confusões, mesmo em Agosto. Não deu para tudo, mas fizemos muito: fomos à praia (e comemos bolas de berlim, pois claro), encontrámos amigos e ficámos horas a conversar, lambuzámo-nos na Gardy e na Welwitschia, demos passeios nocturnos pela Rua de Santo António e fomos a uma galeria de arte no meio do campo, onde se ouvem galos todo o dia. É um lugar bonito e quase idílico que estava preciosamente guardado na minha memória: é tão perfeito quanto me lembrava, mas esqueci-me de levar o cartão de memória da máquina fotográfica, estupidamente. Terei de lá voltar.



O curioso é que, quando vivia no Algarve, só queria vir para Lisboa. Agora dou por mim com saudades destas coisas pequenas. E à medida que o comboio se afastava de Faro, prometi a mim mesma que não voltarei a estar tanto tempo sem visitar esta parte do país, esta parte de mim.

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